Sumário
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Entenda a Reforma Tributária no Brasil, saiba o que mudou até dezembro de 2025 e o que vem por aí em 2026.
A maior transformação tributária das últimas décadas já começou!
A Reforma Tributária que o Brasil vinha articulando há anos saiu do papel com a promulgação da Emenda Constitucional nº 132/2023, abrindo caminho para a maior reestruturação do sistema de tributação sobre consumo, bens e serviços das últimas décadas.
Para contadores e gestores, o momento exige atenção: por um lado, é preciso compreender a estrutura do novo sistema; por outro, é necessário se preparar para a transição, que exige adaptações nos processos, nos sistemas e nos planejamentos tributário e de preços.
Este texto faz uma retrospectiva desde a publicação da emenda constitucional até dezembro de 2025, incluindo a informação mais recente sobre o adiamento da definição de parte da Reforma, e aponta o que esperar em 2026.
Como a Reforma está estruturada: os novos tributos e o novo modelo de tributação
O Brasil substituirá o modelo atual de tributação, considerado fragmentado e complexo, por um sistema baseado em “IVA dual”, mais unificado e transparente.
Os três pilares da tributação de consumo:
Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS): tributo federal que substitui PIS e Cofins
Imposto sobre Bens e Serviços (IBS): tributo de estados e municípios, que unifica ICMS e ISS
Imposto Seletivo (IS): tributo regulatório, que incide sobre bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente (bebidas alcoólicas/açucaradas, cigarros, veículos, bens minerais etc.).
A lógica da tributação passa a ser sobre o valor adicionado no consumo final, o que tende a simplificar e tornar mais transparente a cobrança.
O que já está definido até dezembro de 2025
A emenda constitucional que introduziu a Reforma foi promulgada entre 2023 e 2024.
Em 2025, foram sancionadas leis complementares que regulam a estrutura básica para CBS, IBS e Imposto Seletivo, além de obrigações acessórias previstas para a transição.
Está definido que a transição se dará de forma gradual até 2033, com anos intermediários de adaptação do sistema, ajustes de alíquotas e coexistência de regras.
Em resumo: o arcabouço legal e institucional da Reforma está consolidado, mas sua operacionalização permanece em fase de implementação e consequentes ajustes.
O que ainda está em aberto
Embora as bases estejam definidas, o sistema ainda não está fechado em todos os seus detalhes.
Aspectos que seguem em construção:
- alíquotas definitivas para CBS e IBS
- exceções e tratamentos setoriais
- regimes diferenciados
- regras específicas de creditamento
- obrigações acessórias
- regulamentações estaduais e municipais
- ajustes operacionais na arrecadação
A convivência entre os sistemas antigo e novo exigirá capacidade técnica e atenção redobrada dos profissionais da área contábil.
Novo dado de dezembro de 2025: adiamento da definição do Imposto Seletivo
Um ponto relevante e recente mudou um pouco o panorama esperado para 2026. O governo federal decidiu adiar para 2026 o envio do projeto de lei (PL) que definirá as alíquotas do Imposto Seletivo.
A decisão se deve à falta de consenso e à necessidade de calibrar a carga tributária total, considerando CBS, IBS e IS. Até que o PL seja enviado e aprovado, permanece a incerteza sobre quanto exatamente pagarão empresas e consumidores sobre produtos sujeitos ao IS.
Como esperado, esse adiamento impacta de forma direta setores intensivos nos produtos/serviços sujeitos ao Seletivo e exige cautela adicional por parte de contadores e gestores no planejamento tributário.
O que muda para contadores e gestores: realidades, desafios e oportunidades
A transição exige adaptação urgente
Mesmo com as bases da Reforma definidas, 2026 será um ano de ajustes: sistemas fiscais e de ERP, emissão de notas, classificação tributária, regimes de crédito e compensação — tudo deve ser revisto.
Incerteza com o Imposto Seletivo exige cenários alternativos
Com a definição das alíquotas adiada, é prudente preparar cenários conservadores e otimistas — considerando diferentes patamares de IS — para simular o impacto sobre insumos, preços, margem e caixa.
Comunicação com clientes e empresas será essencial
Empresários devem ser informados sobre a incerteza atual — principalmente aqueles que lidam com produtos ou serviços sujeitos ao IS. Cabe ao contador orientar, projetar riscos e mostrar alternativas.
Oportunidade de se tornar parceiro estratégico
Quem se antecipar à adaptação, oferecer análises de impactos e cenários, orientando estrategicamente será percebido como consultor de valor — não mero prestador de serviços.
O que esperar de 2026: cenário para contadores, gestores e empresas
Considerando o cronograma previsto, com o ajuste recente sobre o Imposto Seletivo, o panorama para 2026 indica:
- Ano de adaptação e obrigações acessórias, sem cobrança imediata de CBS/IBS para a maioria das empresas — conforme comunicado do governo.
- Envio do PL das alíquotas do Imposto Seletivo — a expectativa é que isso aconteça no início de 2026, com tramitação para aprovação prevista até meados do ano.
- Após aprovação — e conforme a regulamentação — empresas dos setores afetados precisarão reavaliar custos, preços e estrutura fiscal.
- Escritórios contábeis deverão acelerar a atualização de sistemas, processos e capacitação, antecipando mudanças operacionais e consultivas.
Principais riscos e incertezas
A indefinição das alíquotas do Imposto Seletivo cria insegurança para setores específicos, dificultando projeções confiáveis de preço, custo e margens.
A coexistência de regras antigas e novas durante o período de transição pode gerar complexidade, erros fiscais ou dupla interpretação — exigindo atenção redobrada.
A adaptação tecnológica e processual é obrigatória, quem negligenciá-la estará vulnerável a penalidades, retrabalhos ou prejuízos.
Recomendações para contadores e gestores já em 2026
- Realize um diagnóstico tributário da empresa ou da carteira de clientes — identifique produtos/serviços sujeitos ao Imposto Seletivo.
- Construa cenários com diferentes alíquotas do IS: conservador, moderado e agressivo — para avaliar impacto sobre preços, caixa e competitividade.
- Atualize sistemas fiscais/ERP e processos internos desde já, antecipando mudanças na emissão de notas, créditos, cálculos e obrigações acessórias.
- Comunique clientes e stakeholders sobre a incerteza atual — transparência gera confiança.
- Acompanhe de perto o andamento do Legislativo em 2026: aprovação do PL do Imposto Seletivo, regulamentações estaduais/municipais e eventuais ajustes.
Esclarecimento sobre cálculos e simulações da Reforma Tributária
Embora o cenário ideal envolvesse a apresentação de pilares já plenamente definidos, diversos elementos da Reforma Tributária seguem em construção, como:
- percentuais finais de alíquotas
- exceções e tratamentos setoriais
- regras de creditamento
- regimes diferenciados
- normas complementares
- regulamentações infralegais
- ajustes operacionais na arrecadação
Isso significa que qualquer cálculo realizado hoje deve ser tratado como projeção técnica, e não como valor definitivo.
A transição da Reforma Tributária vai até 2033 e, durante esse período, ajustes serão naturais e esperados. Por isso, simulações atuais devem servir para estudo, planejamento e preparação — jamais como base para tomada de decisão irreversível.
A calculadora oficial e o seu uso correto
Em julho de 2025, a Receita Federal disponibilizou uma ferramenta pública de simulação da Reforma Tributária sobre o consumo.
Essa ferramenta:
- é gratuita
- é pública
- tem finalidade educacional
- oportuniza compreender a lógica dos novos tributos
- ajuda na preparação profissional
- não representa cálculo legal definitivo
Ela é recomendada como instrumento de aprendizado e adaptação, especialmente para contadores, analistas e gestores que desejam entender o novo sistema por dentro.
Recomendações práticas para contadores e gestores
- Atualize seu conhecimento continuamente.
- Reavalie processos e softwares.
- Prepare cenários de impacto.
- Oriente clientes com transparência.
- Acompanhe normas oficiais.
- Adapte contratos e modelos financeiros.
- Atue como consultor estratégico — não apenas como executor.
Conclusão
O processo pelo qual a Reforma Tributária passou entre 2023 e 2025 representa um divisor de águas para o sistema fiscal brasileiro, mas, como demonstrou o adiamento do projeto que definirá as alíquotas do Imposto Seletivo, a transição será gradual e marcada por ajustes ao longo dos próximos anos.
Para contadores e gestores, o movimento já começou: revisar processos, antecipar impactos e replanejar cenários com base em dados oficiais e normas em evolução será essencial. Mais do que agir com pressa, o momento exige atenção, discernimento e decisões fundamentadas.
Quem se prepara agora, com estratégia e visão consultiva, estará em posição de vantagem quando o novo sistema estiver plenamente operacional. 2026 será um ano decisivo — e a preparação de hoje, feita sem ansiedade e com clareza técnica, fará toda a diferença amanhã.
Por: Vanessa Mandarano
Revisão: Beatriz Baptista
Áudio: Rosangela Diniz
Imagem: Freepik